É importante dizer que este texto não tem como objetivo defender que é possível ser trinitário e não ser cristão, mas apenas explorar essa hipótese. Para isso, irei trabalhar com um experimento mental: o experimento do pesquisador sincero. O nosso pesquisador sincero é uma pessoa que, em um primeiro momento, não teve contato com o Cristianismo, mas usando somente a razão, conseguiu demonstrar a doutrina da Trindade e da encarnação do Logos (não sei se isso é realmente possível, mas assumamos, para fins do experimento, que esse seja o caso). No contexto do experimento mental irei apresentar informações históricas (que eu concordo) e no final darei uma conclusão pessoal (minha) sobre o que pretendo concluir com o experimento.
Comecemos o experimento mental: Nosso pesquisador sincero, ao estudar a doutrina da Trindade, concluiu que, mesmo sem pressupor nada em termos de revelação, essa doutrina é demonstrada racionalmente e é a melhor formulação sobre a natureza de Deus. Imaginemos que esse pesquisador sincero hipotético raciocinou do seguinte modo:
Deus é o Sumo Bem, e o Sumo Bem é aquilo que bonifica, a bonificação e o que é bonificado e, sendo Deus o que é de mais digno que há, o termo desses atos é o próprio Deus, de modo que Deus é trino. Talvez essa pessoa também tenha concluído que Deus é amor e, sendo amor, Deus é aquele que ama, o amor e o que é amado e, dado que Deus tem dignidade máxima, cada um desses atos corresponde a uma hipóstase plenamente divina. Por fim, pode ser que essa pessoa tenha concluído, por demonstração racional, que Deus é Intelecto e Vontade, como Intelecto Deus pensa a si mesmo, gerando o Pensamento (Logos) e como Vontade Deus ama a Si mesmo, espirando o Espírito, que é o Dom desse amor. O princípio do qual procedem ambos os princípios chama-se Pai (o originador). Cada um desses termos deve ser plenamente divino já que se relacionam com o objeto mais perfeito de todo ato divino. Assim, por demonstração racional, sem pressupor nenhuma religião revelacional, essa pessoa conclui que há um só Deus que é trino - Pai, Logos e Espírito.
Depois essa pessoa segue para estudar sobre a encarnação divina. Ele estuda que é esperado que Deus, na medida em que deseja o bem da sua criação e se relacionar com os seres racionais que ele criou, teria decidido encarnar-se, independente de ter existido ou não pecado na criação. Em seguida, ainda em nível puramente racional, tal pessoa conclui que se Deus irá se encarnar, é mais conveniente que o Logos gerado se encarne e seja gerado no ventre de uma virgem pura. Se o Logos se encarnar, tal pessoa conclui que a forma de encarnação conveniente é aquela em que o Logos é uma só pessoa com duas naturezas unidades e distintas.
Os raciocínios acima são meramente ilustrativos ou imaginativos. Embora eu tenha usado certo vocabulário de alguns autores cristãos, nenhum dos caminhos acima são formas de demonstração real da Trindade ou da encarnação do Logos, apenas desejei ilustrar que há "caminhos de possibilidade" para tornar vivo nosso experimento mental. Além disso, neste estágio, nosso pensador sincero chegou a todas essas conclusões usando somente a sua razão, sem contato algum com material cristão.
Após demonstrar a Trindade e a encarnação do Logos somente pela razão, tal pessoa decide ir em busca agora no mundo de quem preenche os requisitos para ser esse Logos. Ele ainda não sabe se esse Logos já veio ao mundo ou se ainda virá. No entanto, ele encontra o Cristianismo, o Cristianismo reivindica ambas as doutrinas e as aplica a Jesus de Nazaré. Mas quando essa pessoa estuda a vida de Jesus de Nazaré, ele descobre que Jesus não preenche de fato os requisitos de ser o Logos divino encarnado. O Cristianismo teria formulado corretamente a doutrina da Trindade e da encarnação do Verbo até onde a razão permitiu aos ilustres filósofos cristãos especular, eles puderam acertar na verdade, mas, dada a tradição revelacional da qual partiam, eles atribuíram essas doutrinas à pessoa mais importante de sua tradição: Jesus de Nazaré. Fizeram os cristãos uma atribuição correta?
I. A FORMULAÇÃO TRINITÁRIA E A ENCARNAÇÃO SEM A IDENTIFICAÇÃO COM JESUS
Do ponto de vista estritamente filosófico, à primeira vista pode parecer haver um obstáculo conceitual intransponível para que alguém aceite a doutrina da Trindade e a da união hipostática sem necessariamente vinculá-las a Jesus de Nazaré. A doutrina trinitária, tal como expressa nos Concílios de Niceia e Constantinopla, postula a existência de um Deus único em três pessoas: Pai, Filho (Logos) e Espírito Santo. A doutrina da encarnação, formulada, por exemplo, no Concílio de Calcedônia e de Éfeso, afirma que o Logos assumiu uma natureza humana. Agostinho, em seu tratado sobre a Trindade, concorda com a doutrina ortodoxa e desenvolve melhor os seus pontos, utilizando-se de analogias baseadas na mente humana. Mas o dado estritamente lógico dessas formulações não especifica a priori que essa encarnação deve ser identificada com uma figura histórica específica (Jesus de Nazaré).
O problema surge quando se analisa a tradição cristã e suas fontes históricas. A identificação do Logos com Jesus de Nazaré é uma noção que aparece pela primeira vez no prólogo do Evangelho de João, escrito possivelmente por volta de 140d.C. como um prefácio para um Evangelho já existente, é a formulação mais explícita dessa identidade: “No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era divino [...] E o Logos se fez carne e habitou entre nós” (João 1:1,14).
Se alguém deseja adotar a doutrina da Trindade e da encarnação sem aceitar essa identificação específica, precisa fornecer uma justificativa para rejeitar esse testemunho sem comprometer a coerência interna da tradição na qual essas doutrinas foram formuladas. Por outro lado, alguém que afirme que Jesus de Nazaré é o Logos encarnado precisa demonstrar isso de forma independente da própria identificação.
II. O PROBLEMA DA CONTINGÊNCIA HISTÓRICA
Uma das objeções que pode ser levantada a princípio é que a identificação de Jesus de Nazaré com o Logos encarnado é historicamente contingente e, portanto, não necessariamente vinculativa para quem aceita as formulações trinitárias e cristológicas. Essa objeção se baseia na ideia de que os dados históricos disponíveis sobre Jesus de Nazaré são limitados e sujeitos a reconstruções diversas, o que impediria uma demonstração certa quanto à sua identidade como Logos. Comecemos pela questão: o que realmente sabemos do ponto de vista histórico? A resposta é a seguinte:
(1) Sabemos que Jesus de Nazaré existiu: É razoável, embora não absolutamente certo, supor que Jesus de Nazaré existiu. No entanto, é verdade que a evidência histórica sobre a existência de Jesus é menos robusta do que a de algumas outras figuras da Antiguidade (como Sócrates), no entanto, ela ainda é suficiente para estabelecer que Jesus existiu. No entanto, a pergunta sobre se Jesus existiu pode ser misleading, talvez o Jesus, como a religião cristã o pensa, nunca existiu mesmo que tenha havido um Jesus de Nazaré.
(2) Sabemos que Jesus foi batizado por João Batista: Possivelmente por volta dos 30 anos, Jesus foi batizado por João Batista em um batismo para purificação dos pecados. Essa informação é constrangedora a ponto de ter sido amenizada nos Evangelhos sinóticos e depois totalmente omitida no Evangelho de João quando relata o encontro de Jesus com o Batista. Essa informação conta com múltipla atestação e seu caráter constrangedor reforça sua historicidade.
(3) Sabemos que Jesus pregou e operou supostas curas na Galileia: Possivelmente Jesus exerceu um ministério voltado a curas, exorcismos e sermões contra a opressão social e política cujo tema central era o Reino de Deus. Esse retrato sobre Jesus é comum entre todos os Evangelhos, o que reforça sua historicidade.
(4) Jesus morreu numa cruz: Jesus, possivelmente após arriscar o começo de um motim em Jerusalém na festa da páscoa, foi preso e morto sob o governo de Pôncio Pilatos. Essa informação é confirmada não só pelo Novo Testamento, mas também por fontes pagãs como Flávio Josefo e Tácito.
Isso é tudo que as evidências históricas (incluindo o que os Evangelhos têm a dizer sobre Jesus sob o filtro histórico) nos informam sobre Jesus de Nazaré, mas nenhuma dessas quatro informações nos permitem concluir que Jesus de Nazaré seja o Logos divino. Ninguém é o Logos divino por se batizar em um batismo de purificação de pecados (isso parece até contar contra a ideia de ele ser o Logos divino), nem por pregar contra injustiças sociais, nem por ter um ministério de curas e exorcismos, nem por morrer em uma cruz após um motim. Mas mesmo que algumas dessas 4 informações permitissem identificar Jesus de Nazaré com o Logos divino, essa prova estaria sujeita ao problema da contingência e subdeterminação históricas.
III. A IMPLAUSIBILIDADE DA IDENTIFICAÇÃO DE JESUS DE NAZARÉ COM O LOGOS DIVINO
Outro ponto levantado é que a identificação de Jesus com o Logos encarnado exigiria uma leitura "implausível" dos textos históricos. Mas aqui é preciso distinguir entre diferentes níveis de plausibilidade: (i) do ponto de vista dos documentos cristãos, a identificação de Jesus com o Logos é plenamente coerente e sustentada de maneira consistente, mas isso ocorre porque ela já pressupõe uma construção teológica sobre Jesus de Nazaré, portanto, nosso pesquisador sincero não pode partir desse ponto de vista, embora ele seja plenamente válido; (ii) do ponto de vista acadêmico secular, pode-se questionar a acuracidade histórica desses documentos, e desse ponto de vista sabemos muito pouco sobre Jesus e o pouco que sabemos não nos permite identificá-lo como Logos Divino e até parece contradizer essa identificação.
Não temos nenhuma fala do próprio Jesus afirmando sua divindade, ao contrário, temos uma fala de Jesus aparentemente negando a sua divindade. Após o jovem rico chamar Jesus de “Bom Mestre”, ele disse: “Por que me chamas de Bom? Ninguém é bom, senão um só que é Deus” (Marcos 10:18 - dito atribuído a Jesus no mais antigo Evangelho do Novo Testamento). Paulo em 50 d.C. foi o primeiro a escrever que Jesus tinha uma “forma divina” e preexistia nessa forma antes de se encarnar, mas nada diz sobre se essa divindade era igual ou consubstancial à do Pai (Filipenses 2:7). É possível que a comunidade Paulina tivesse uma noção de Jesus como divino, mas dentro do pensamento semítico mesmo os anjos são divinos.
A declaração de Jesus como Logos divino vai aparecer de forma clara pela primeira vez em 140 d.C. em João 1:1, mas novamente nada é dito sobre esse Logos ser tão divino quanto o Pai. Por fim, também no século II, Colossenses fala de Jesus como tendo a “plenitude da divindade” (Colossenses 2:9), mas Efésios (3:19), de mesma teologia, também diz que os cristãos têm essa plenitude. Colossenses (1:15), contudo, chama Jesus de “o primogênito de toda criação” e sempre que alguém é dito "primogênito de algo" na Bíblia, ele é parte desse algo. Logo, uma conclusão mais razoável seria que Jesus é a primeira criatura divina. Essa noção de Jesus como divino, mas ainda não consubstancial ou essencialmente igual ao Pai, é a posição comum na patrística inicial. Para a patrística inicial, Jesus era Deus, mas em grau ontologicamente inferior que o Pai.
É só gradualmente que se desenvolveu uma “cristologia do Logos divino” que aos poucos foi elevando Jesus Cristo ao status de Deus encarnado com contribuições de Justino Mártir, Clemente de Alexandria, Irineu de Lyon, Tertuliano, entre outros. Com o tempo, essa desenvolvimento levou a uma identificação de Jesus, não só como criatura divina ou divino (embora menos que o Pai), mas também Deus em igual status ontológico que o Pai. Foi a partir de Alexandre de Alexandria (século III), que a eternidade divina do Filho foi afirmada de forma significativa, mas a declaração clara da consubstancialidade é do século IV. Assim, levou três séculos para os cristãos identificarem plenamente Jesus de Nazaré com o Logos plenamente divino encarnado.
O nosso pesquisador sincero poderia, então, identificar o Logos encarnado com o Logos da cristologia do Logos na sua formulação acabada em três séculos de construção. No entanto, identificar o Logos encarnado da demonstração racional com o Logos divino da cristologia do Logos não é suficiente para provar que Jesus de Nazaré seja o Logos divino, porque o desenvolvimento da cristologia do Logos já é o desenvolvimento dessa identificação e, o argumento que tenta provar que o Cristo da cristologia do Logos é o Logos divino não poderia ser suficiente a menos que se provasse que o Cristo da cristologia do Logos corresponde a quem foi Jesus de Nazaré. Contudo, a opinião amplamente aceita na pesquisa acadêmica, inclusive por pesquisadores cristãos do Jesus Histórico, é que o Jesus de Nazaré e o Cristo da cristologia do Logos são figuras profundamente distintas. Na verdade, a opinião acadêmica é que o próprio Cristo dos Evangelhos não é idêntico ao Jesus de Nazaré e difere dele em assuntos significativos.
IV. ILUSTRANDO O HIATO ENTRE CRISTO E JESUS DE NAZARÉ
Os argumentos apresentados a seguir usam dois casos só de exemplos para ilustrar o hiato entre Jesus de Nazaré e o Cristo dos Evangelhos a fim de mostrar que os Evangelhos não são fontes acuradas sobre Jesus de Nazaré. Existem vários casos assim de relatos nos Evangelhos que não são plausíveis de serem históricos, mas tratarei de dois que servirão de ilustração. O primeiro caso é o das narrativas natalícias de Mateus e Lucas, já o segundo o caso são os relatos da paixão de Cristo. No caso das narrativas do nascimento de Jesus, elas têm inconsistências sérias tanto internamente quanto externamente:
(1) As narrativas são contraditórias: Mateus relata que a família de Jesus era natural de Belém onde Jesus nasceu e que Jesus só passou a morar em Nazaré após sua família ter de se refugiar no Egito e escolher depois um novo lugar para morar; Lucas diz que Maria e José eram naturais de Nazaré e Jesus nasceu em Belém em um estábulo e depois sua família retornou com ele a Nazaré. Não tem como ambas as narrativas serem verdadeiras. Além disso, as duas narrativas apresentam cada uma a própria genealogia a partir de José que se contradizem entre si.
(2) As narrativas são inconsistente com Marcos: As narrativas de Mateus e Lucas se forem pelo menos uma delas verdadeiras tornam muito difícil explicar porque o Evangelho de Marcos (que é mais antigo) diz que a mãe de Jesus achou que ele estava louco quando Jesus começou seu ministério itinerante, ao que Jesus responde que sua verdadeira mãe é aqueles que aceitam a sua pregação: "Quando os seus familiares o souberam, saíram para o reter; pois diziam: 'Ele está louco'. Chegaram sua mãe e seus irmãos e, estando ao lado de fora, mandaram chamá-lo. Ora, a multidão estava sentada ao redor dele; e disseram-lhe: 'Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e te procuram'. Ele respondeu-lhe: 'Quem é a minha mãe e quem são meus irmãos? E, correndo o olhar sobre a multidão, que estava sentada ao redor dele, disse: 'Eis aqui minha mãe e seus irmãos. Aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha mãe e minha mãe" - Marcos 3:21, 31-35.
(3) As narrativas têm inconsistências historiográficas: No caso de Lucas, não existe, por exemplo, censo romano que exigia a família a se deslocar à Belém; há na narrativa, ainda, uma lacuna de tempo de 10 anos porque o texto de Lucas menciona que Maria ficou grávida quando ocorreu o censo de Quirino (7d.C.) e, segundo Mateus e Lucas, Jesus nasceu pouco antes da morte de Herodes (4a.C.). Isso faria com que a gravidez de Maria tivesse que ter durado cerca de 10 anos.
(4) Há uma explicação óbvia para a existência dessas narrativas: é bem claro que tanto Mateus e Lucas estão criando narrativas próprias para explicar como Jesus, mesmo sendo de Nazaré, nasceu em Belém (Miquéias 5:2). Mateus chega até mesmo a inventar uma profecia de que Jesus "mudaria para Nazaré" "ele será chamado de nazareno" que não existe em lugar algum. Portanto, não é plausível que as narrativas do nascimento de Jesus em Mateus e Lucas sejam históricas.
O segundo caso é o das narrativas de paixões que envolvem os julgamentos de Jesus pelo Sinédrio e por Roma. É certo e seguro afirmar que Jesus morreu na cruz, mas não que ele passou por um processo de julgamento. Assim, sobre as narrativas da paixão de Cristo elas não podem ser históricas também por diversas inconsistências internas e externas:
(1) As narrativas contradizem a informação historiográfica: Por exemplo, Pilatos é representado como um imperador consciencioso e empático enquanto na literatura historiográfica ele é cruel. Também fere a evidência historiográfica que Jesus tivesse passado por um julgamento tão extenso e complexo antes de ser morto. Além disso, seria absurdo do ponto de vista histórico que houvesse um costume de libertar prisioneiro em troca de outro numa festa tão delicada como a páscoa.
(2) Contradições entre as narrativas: Marcos diz que Jesus morreu às 9h da manhã, já João, para fazer a morte de Jesus coincidir com a hora do sacrifício no templo, diz que Jesus morreu ao meio dia. Há divergências também sobre como se deu o processo de julgamento de Jesus, como em Mateus e Lucas o julgamento ser de modo irregular durante a noite e em Lucas ser pela manhã.
(3) Antisemitismo claro e tentativa de limpar a barra dos romanos: Há uma tentativa clara nos Evangelhos de tirar a culpa dos Romanos pela morte de Jesus e atribuir ela aos judeus de forma que é claramente exagerada. Por exemplo, Pilatos diz que não quer matar Jesus de jeito nenhum (manda ele de volta para Herodes, apresenta Jesus machucado para o povo desistir da ideia de matar ele, propõe soltar Barrabás para não ter que matar Jesus, sua esposa tem um sonho para Jesus não ser morto, Pilatos lava as mãos para dizer que não tem culpa) e de jogar essa culpa nos judeus (Jesus é traído por Judas - de onde vem 'judeu', Jesus só é morto porque os judeus exigem muito e clamam para ele ser crucificado). A explicação plausível para isso é que as narrativas da paixão tem como um de seus objetivos reduzir a culpa dos Romanos pela morte de Jesus e atribuí-la a judeus.
(4) A explicação mais plausível: Do ponto de vista histórico e por como funcionava a páscoa, quando alguém ameaçava um motim em contexto de Páscoa era preso por um soldado romano e preso por risco de motim e imediatamente morto. O mais razoável é supor que esse foi o caso de Jesus já que ele ameaçava um motim ao causar confusão no templo e parece ter tido o destino comum - ser preso e imediatamente morto sem passar por um julgamento. Romanos não perdiam tempo com extensos julgamentos nesses casos. Desse modo, não é plausível que as narrativas da paixão de Cristo sejam históricas.
Esses dois casos são apenas exemplos, há diversos outros casos assim nos Evangelhos. Assim, temos o seguinte quadro: (i) identificar o Logos encarnado com o Cristo da cristologia do Logos não é suficiente para demonstrar que Jesus de Nazaré seja o Logos encarnado; (ii) demonstrar que o Logos encarnado é o Cristo dos Evangelhos não é suficiente para provar que Jesus seja o Logos encarnado. Restaria o argumento de que devemos aceitar Jesus de Nazaré como o Logos divino porque é só a tradição cristã que desenvolveu a doutrina da Trindade e da encarnação do Logos. Não sei se essa alegação é verdadeira, mas mesmo se for, isso precisa ser colocado em um quadro maior: (i) o que garante que não possa surgir no futuro outra religião que faça o mesmo?; (ii) a tradição cristã não poderia ter acertado na parte racional da doutrina mas errado na identificação desse Logos encarnado com a figura da sua tradição? Também é irrelevante para o problema se não houver nenhuma outra religião que tenha chegado a essas verdades tão bem formuladas sobre a Trindade e a doutrina da encarnação, desde que o pesquisador sincero situe o erro apenas na atribuição da identificação e seja plausível que ele, o pesquisador sincero, aceite tais doutrinas sem aceitar esse erro de identificação.
Além disso, os ditos mais antigos de Jesus parecem indicar ainda que Jesus de Nazaré não é o Logos divino encarnado. Primeiro, Jesus iniciou seu ministério sendo batizado por um pregador que pregava aquele batismo como forma de purificar pecados – por que o Logos divino se submeteria a um ritual de purificação de pecados? (Marcos 1:4-5, 1:9). Em segundo lugar, o próprio Jesus repreendeu o jovem rico por tratá-lo como Deus: “Por que me chamas de bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus” (Marcos 10:17-18). Por fim, em sua pregação, Jesus disse que sua geração estaria viva no fim do mundo (Marcos 13:30; Mateus 24:34), o que não ocorreu - erraria o Logos divino uma profecia? Lemos também que, no início de seu ministério, Jesus foi rejeitado pela sua própria mãe, que o considerou um louco (Marcos 3:21, 3:31-35) – isso sugere que Jesus não tinha uma maternidade divina ou imaculada - poderia o Logos divino ter nascido de uma mãe que rejeitou seu ministério no início? Esses textos são importantes porque dado critérios históricos metodológicos, eles têm mais plausibilidade de serem históricos. Alguém poderia dizer que todos os textos aqui podem ser "reinterpretados" e "harmonizados" com a doutrina cristológica, mas nesse passo do argumento isso não pode ser feito a menos que já tenha sido demonstrado de modo independente e plausível por que temos razões fortes para crer que Jesus de Nazaré é o Logos encarnado. Antes disso ser estabelecida, o argumento da harmonização está interditado.
Por isso, o pesquisador sincero não pode partir da visão cristã de que os Evangelhos são historicamente acurados, não pode ler já pressupondo uma interpretação que busca harmonizar os relatos, não pode adotar a interpretação prévia dos teólogos cristãos, ele deve fazer uma pesquisa independente e tomar os textos cristãos, mesmo os canônicos, como faria com qualquer outra documentação histórica de qualquer outra tradição que tivesse avaliando para encontrar o Logos divino. Não bastaria que os cristãos apresentassem uma explicação para esses textos que fosse possível dentro da cristologia cristã, eles precisariam provar que mesmo sem pressupor a verdade da cristologia cristã, a conclusão a que se chega de modo independente é a de que Jesus de Nazaré é o Logos divino encarnado.
Aqui é importante fazer uma observação. Para alguém que é cristão, há diversas possibilidades de interpretar todas as informações históricas que eu trouxe de modo compatível com a religião cristã. Assim, isso significa que o experimento mental não funciona como uma refutação para quem já é cristão. Por outro lado, o experimento mental se direciona ao problema de quem não é cristão e está avaliando a verdade do Cristianismo. Portanto, mostrar como as informações históricas do texto tem uma interpretação possível ou compatível com a religião cristão não é suficiente. O que precisa ser demonstrado é que a interpretação do material histórico, lida independente do pressuposto da religião cristã, é capaz de fornecer uma prova plausível da verdade cristã.
Para aprofundar a respeito das bases materiais dos argumentos históricos deste texto, o leitor é remetido a um livro PDF completo e gratuito que escrevi apresentando a minha interpretação da Bíblia e as evidências dessa interpretação, portanto, antes de engajar com a crítica aos elementos históricos do texto, sugiro ao leitor a leitura deste material que pode ser acessado (aqui).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A dificuldade de aceitar Jesus de Nazaré como o Logos encarnado pode deixar nosso sincero pesquisador hipotético algumas saídas: (i) revisar seus argumentos racionais sobre Trindade e encarnação do Logos e revisar total ou parcialmente sua visão sobre esses assuntos; (ii) concluir que o Logos divino ainda não se encarnou; (iii) procurar em outras tradições alguém que preencha o requisito de ser o Logos divino encarnado; (iv) procurar outra pessoa na própria tradição cristã que preencha melhor o critério de ser o Logos divino; (v) esperar até que um cristão ou uma evidência histórica apresente um argumento convincente de que Jesus de Nazaré seja o Logos divino; (vi) aceitar que o Cristo da cristologia é o Logos divino encarnado mesmo sem precisar corresponder a Jesus de Nazaré; (vii) concluir que Jesus de Nazaré é o Logos encarnado por fé mesmo sem materialidade histórica suficiente para demonstrar isso.
Minha conclusão pessoal até o momento é que não há evidências suficientes para sustentar que Jesus de Nazaré possa ser identificado com o Logos Divino. Pelo contrário, a tradição cristã, as Escrituras e o desenvolvimento histórico do Cristianismo parecem apontar consistentemente na direção oposta. A pergunta que sobra é: é ainda possível manter o trinitarianismo ortodoxo e a doutrina da encarnação do Logos sem assumir que Jesus de Nazaré seja o Logos divino encarnado? Quanto a isso, minha resposta é: não sei. Mas, uma segunda questão é - tem nosso pesquisador sincero razões intelectuais suficientes para se converter ao Cristianismo? A resposta nesse contexto é não. E se alguém que conseguiu provar a doutrina da Trindade e da encarnação do Logos pela razão somente não tem razões intelectualmente suficientes para se tornar cristão, a fortiori, não-cristãos que não creem nessas doutrinas também não as têm.
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